sexta-feira, 6 de junho de 2014

Professores Desnecessários à Igreja: O leigo-desleixado


Pr. Esdras BenthoO primeiro tipo de professor desnecessário à igreja contemporânea é o leigo-desleixado. Por leigo entendo aquele que não tem formação pedagógica. Nessa categoria temos milhares de professores nas Escolas Dominicais atuando sem formação pedagógica formal. Eu mesmo iniciei a prática da educação cristã como professor leigo. 

Ao passar pelos corredores da história da educação brasileira, ou conferir as estatísticas modernas a respeito da formação do professor, encontrar-se-á o leigo transitando e atuando na educação infantil e primária. Da reforma pombalina [1] ao final da Década da Educação [2], a presença do professor leigo é incontestável.

A proliferação de professores sem qualificação pedagógica é muito frequente nas áreas excluídas e pobres dos estados brasileiros, principalmente nas zonas rurais das regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste. As características mais comuns desses esforçados voluntários da educação são:
a) ensino fundamental incompleto (muitos estudaram apenas até a 4ª série); e
b) falta de habilitação técnica [3].
Contudo, fizeram e ainda fazem o que podem para ensinar o pouco que sabem à criança, ao jovem e adulto esquecidos pelo poder público. Observe ainda, essa realidade social não é diferente da que encontramos em muitas escolas dominicais no Brasil.
Para atender a demanda e qualificar esses voluntários, o Ministério da Educação (MEC), em 1999, criou o Programa de Formação de Professores em Exercício (PROFORMAÇÃO), que, sendo um curso de Ensino Médio, procurava habilitar os leigos para o magistério na modalidade EaD – Ensino à Distância. Os professores assim formados estariam aptos para trabalharem na Educação Infantil, nos quatro primeiros anos do Ensino Fundamental, e, consequentemente, na Educação de Jovens e Adultos (EJA). Mesmo assim é possível questionar a qualidade dessa formação. Essa realidade torna-se ainda mais complexa quando observada na perspectiva das creches e casas de acolhimento, mas essa temática está longe dos objetivos aqui propostos. Por conseguinte, a realidade verificada na sociedade brasileira não é diferente daquela que encontramos em nossas igrejas, uma vez que a comunidade cristã está inserida na sociedade e socialmente a reflete.
Retornando à perspectiva eclesiástica, o crescimento e fortalecimento das igrejas protestantes no Brasil deve-se, acima de tudo, ao trabalho do leigo – aquele que não foi ordenado às hierarquias eclesiásticas. O trabalho realizado pelo leigo foi até mesmo reconhecido e defendido pela cúria católica romana. Entre nós, pentecostais, não é novidade aquilo que outros estão descobrindo mais recentemente. Mas a comparação é apenas fugidia e retórica. Ser leigo ou exercer um dos ministérios laicais entre os católicos não tem o mesmo significado que atribuímos ao exercício do leigo, por exemplo, na Assembleia de Deus, ou igrejas pentecostais – que cresceram por meio do ministério dos leigos. O laicado entre os católicos é organizado e dirigido. Acontece que leigo para a cúria romana é, correndo o risco de uma simplificação exacerbada, aquele cristão (ele ou ela) que não é ordenado, e, não significa, como já observamos, e pretendo afirmar acerca dos pentecostais, um sujeito sem formação ou qualificação para o exercício do ministério, sem compreender sua vocação e missão profética no mundo.
A essa altura de nosso artigo, posso correr o risco de classificar alguns tipos de laicado:
a) leigo, em sentido próprio, isto é, não ordenado;
b) leigo-prático, sem qualificação ou formação, mas que exerce a função no lugar de um qualificado;
c) leigo-desleixado, o negligente, preguiçoso, descuidado.
Assim, não vejo qualquer problema em ser leigo em sentido próprio na igreja. Eu mesmo, repito, iniciei o ministério de ensino como leigo durante muitos anos (sem ser ordenado ao ministério e sem qualificação pedagógica formal). Contudo, existe uma diferença entre o leigo das categorias “a” e “b” com o da categoria “c”, o desleixado.

O primeiro não foi ordenado ao ministério, mas, potencialmente, é um obreiro. Ele possui ou está em processo de formação e até mesmo de ordenamento, e mesmo que não seja assim, ele é qualificado para o exercício docente.

O segundo exerce uma função, no caso a docência, mesmo sem estar formalmente qualificado. Ele é, como afirma Martins, “professor prático experimentado-leigo na docência”[4]. Essa classe de professor não possui a teoria que deve embalar a formação, mas desenvolveu uma prática que o “qualifica”, pela experiência e conhecimento, ao exercício magisterial, mesmo que limitado. Embora o leigo-prático não tenha a formação técnica ou acadêmica, ele se preocupa com sua formação, fazendo aqui e ali, cursos de pequena duração para o exercício do magistério eclesiástico. É fácil identificá-lo:

(1) sua presença é certa em seminários e congressos de educação para capacitação e formação de professores da ED; 

(2) sempre está presente nas reuniões de professores; 

(3) busca capacitação adequada; 

(3) costuma variar os métodos em sala de aula, conforme a necessidade de seus alunos; 

(4) busca formação teológica, seja Básico, seja Médio, ou Bacharel em Teologia; 

(5) reconhece suas limitações e, caso não tenha completado os estudos, empenha-se em concluí-los para exercer o ministério mais eficientemente; 

(6) não se aparta dos livros de teologia, didática e formação geral; 

(7) tem em grande estima aqueles que, como ele, se dedicam ao munos docendi (ministério do ensino); 

(8) se esforça para aprender e melhorar como pessoa cada vez mais.
Todavia, o terceiro, o leigo-desleixado, diferente dos anteriores, não tem qualquer interesse em sua própria formação. Ele é fácil de identificar, porque, como o próprio termo designa, é indolente, preguiçoso, relapso e não tem qualquer interesse em ser um docente qualificado. Está mais interessado no título e na ocupação, que lhe dão status na comunidade, do que preocupado em exercer o magistério cristão com eficiência. Ele:

(1) falta constantemente aos seminários para professores; 

(2) dificilmente aparece nas reuniões de professores; 

(3) enfada aos alunos pela falta de método e didática; 

(4) não tem qualquer interesse em buscar formação teológica, na verdade, ele é contra a teologia;

(5) jamais reconhece suas limitações e não tem qualquer interesse em estudar ou concluir os estudos; 

(6) não lê qualquer manual didático, com exceção da Bíblia a qual não entende apropriadamente;

(7) critica os professores que se dedicam ao magistério cristão porque entende que o dom é suficiente para o desempenho do munus docendi; 

(8) é desleixado com sua própria formação.
É possível restaurar o sabor do sal depois de insosso?, pergunta o Mestre dos mestres. Essa última classe de professor não está qualificada para enfrentar os modernos desafios do ofício docente. A igreja contemporânea, preocupada com os desafios modernos, externos e internos, não deve tolerar em suas fileiras magisteriais professores que são entraves ao crescimento do Corpo de Cristo.
Ora, se o motor do carro entra em pane, o motorista leva o veículo ao farmacêutico ou açougueiro? É claro que conduz para o mecânico, aquele que é especializado. Suponhamos que uma pessoa repentinamente sofra do coração e, ao chegar na sala cirúrgica, vê um indivíduo com um macacão cinza, todo sujo de graxa, com mãos grandes e grossas, abrindo uma caixa de ferramenta e retirando uma chave de grife, martelo, alicate, furadeira... O paciente atônito, com a voz trêmula e olhos esbugalhados, pergunta:
- o senhor é o cirurgião?
Ele, sem confiança, responde:
- É que o cirurgião não está, e o hospital imaginou que pelo fato de eu consertar motor de carros estou apto para fazer cirurgias no coração.
Se o paciente não morrer de susto, certamente morrerá na cirurgia. Se costumamos levar nossos aparelhos aos profissionais para que possam consertá-los; ou temos o hábito de consultarmos especialistas, por qual motivo os pais devem levar seus filhos todos os domingos para assistirem aulas com professores dominicais desqualificados? Os objetos valem mais do que as pessoas? O ministério de ensino é tão vulgar a ponto de qualquer um poder exercê-lo?
Pr. Esdras Costa Bentho é Pedagogo, Teólogo e Mestre em Teologia pela PUC-RJ
 Notas
[1] Marques de Pombal (1699-1782) foi o responsável pela expulsão dos jesuítas do Brasil e pela reforma educacional, conhecida como “reforma pombalina”.
[2] A Década da Educação foi uma iniciativa política e educacional, cuja Lei 9.394/96 , Art. 87 § 4º estabelecia que até 2006 (isto é, de 1996 a 2006) somente seria admitidos como educadores professores habilitados em nível superior ou formados por treinamento em serviço. 
[3] De acordo com o Dicionário Interativo da Educação Brasileira em 1999, cerca de 30%, dos 456 mil professores de ensino fundamental no Norte, Nordeste e Centro-Oeste não tinham habilitação para lecionar. Ainda, de acordo com dados do MEC, do universo de professores leigos existentes no País, na mesma época, cerca de 113 mil não haviam concluído sequer o ensino fundamental. Segundo dados do MEC, o Proformação conseguiu diminuir o número de professores leigos no Brasil para 45 mil, em 2001.
[4] MARTINS, M.A.V. O professor como agente político. São Paulo: Edições Loyola [?], p.18. Coleção “Educ-ação” – 13.

Fonte / Extraído: http://www.cpadnews.com.br/blog/esdrasbentho/cultura-crista/88/professores-desnecessarios-a-igreja:-o-leigo-desleixado.html

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